Amazônia

Rios voadores: como a destruição da Amazônia ameaça a chuva em todo o Brasil

Cientistas alertam que o desmatamento está comprometendo o ciclo hidrológico que abastece de água a agricultura e as cidades do Centro-Sul do país.
Por Carlos Mendes  ·  27 de junho de 2025  ·  Norte Vista

A Amazônia não é apenas a maior floresta tropical do mundo. É também uma máquina de produzir chuva. Através de um fenômeno que os cientistas chamam de "rios voadores", a floresta amazônica bombeia para a atmosfera bilhões de toneladas de vapor d'água por dia — vapor que se transforma em chuva sobre o Brasil Central, o Sudeste e até partes do Sul do país.

Esse serviço ecossistêmico, invisível mas fundamental, está sendo comprometido pelo desmatamento. E as consequências já estão sendo sentidas: as secas que atingiram o Sudeste em 2014 e 2015, as enchentes do Rio Grande do Sul em 2024, as irregularidades climáticas que afetam a agricultura brasileira — tudo isso tem, em graus variados, uma conexão com o que está acontecendo na Amazônia.

Como funcionam os rios voadores

As árvores da Amazônia absorvem água do solo pelas raízes e a liberam na atmosfera através das folhas — um processo chamado evapotranspiração. Uma única árvore grande pode liberar até 1.000 litros de água por dia. Multiplicado por 390 bilhões de árvores da floresta amazônica, isso gera um fluxo de vapor d'água que é transportado pelos ventos para o sul e o sudeste do continente.

"A Amazônia funciona como um ar-condicionado e um gerador de chuva para o Brasil inteiro. Quando você destrói a floresta, você está desligando esse sistema."

O ponto de não retorno

Cientistas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) estimam que a floresta amazônica pode atingir um "ponto de não retorno" quando o desmatamento chegar a 20-25% da área original. Nesse ponto, o ciclo hidrológico seria tão comprometido que a floresta não conseguiria mais se regenerar — e partes dela se transformariam em savana.

O desmatamento acumulado já chegou a aproximadamente 17% da Amazônia brasileira. Estamos perigosamente próximos do limite. E cada ano de desmatamento nos aproxima mais de um ponto do qual não há retorno.

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